O não dito nos grupos

20 de dez - Artigo - POR Ana Kelly Martinez

 

O ser humano por essência é social

 

O ser humano por essência é um ser social e tem a necessidade de conviver em grupos, formar sociedades e se comunicar. Isso acontece desde o início da vida com o grupo familiar e ao longo dela com os tantos outros grupos dos quais faz parte na escola, na faculdade, no bairro onde mora, no trabalho, etc. Uma das formas mais importantes de interação entre as pessoas é a linguagem, que pode ser definida como um complexo conjunto de sinais que permite não só a comunicação entre os indivíduos, como também expressa toda a cultura de um povo. Segundo Bellezi (2007), a linguagem pode ser classificada em linguagem verbal, que utiliza a palavra e exterioriza o ser social e linguagem não verbal, que utiliza outros sinais para transmitir a mensagem e exterioriza o ser psicológico, sendo sua principal função demonstrar os sentimentos.

Davis (1979) acrescenta que:

 

a linguagem não verbal representa a denúncia das nossas vontades, dos desejos contidos, muito embora, diante da expectativa de condutas sociais de um grupo, possa se desenvolver um comportamento no qual se tenta esconder essas verdadeiras intenções. Trava-se aqui uma batalha entre aquilo que representa os “desejos do corpo” e a espera da “boa conduta.

 

O que acontece é quando essas intenções não são explicitadas, na maioria das vezes há prejuízo na comunicação e, se isso for pensado dentro do contexto dos grupos, há prejuízo no desenvolvimento das relações entre seus membros e, conseqüentemente, no crescimento do próprio grupo.

Desde os primórdios dos estudos sobre o funcionamento dos grupos a comunicação entre os seus membros, seus bloqueios e a interferência do que não é dito no processo de desenvolvimento é uma questão considerada. Kurt Lewin foi um dos autores que percebeu este fenômeno em sua experiência no M. I. T. ((Massachusetts Institute of Technology), um centro de pesquisas em dinâmica de grupos. Lewin se dedicou a experiências e estudos na psicologia social, uma hora enfocando o entendimento das constantes psicológicas dos grupos minoritários e outra hora se dedicando ao estudo dos pequenos grupos, que acabou sendo sua principal opção em termos de pesquisa. Dizia Lewin:

 

“as variáveis de qualquer fenômeno de grupo, em razão de sua essencial complexidade, não podem ser identificadas e manipuladas, senão no próprio campo, numa perspectiva da pesquisa-ação”. Dentro dessa perspectiva, nos grupos em que vivenciou.

 

Lewin constatou, que.

as relações interpessoais não podem tornar-se positivas, mais socializadas e o grupo integrar-se de modo definitivo, enquanto subsistirem entre os membros fontes de bloqueios e de filtragens em suas comunicações. A gênese de um grupo e sua dinâmica são determinadas, em última análise, pelo grau de autenticidade das comunicações que se iniciam e se estabelecem entre seus membros. (p.70 Mailhiot).

 

É interessante refletirmos até que ponto utiliza a comunicação autentica em nossas relações profissionais e pessoais? Ela é importante para a construção de relações interpessoais sadias onde o crescimento mutuo é fator desencadeante para o amadurecimento das relações humanas.

 

Quando a comunicação se estabelece mal

Quando a comunicação se estabelece mal, ou não se estabelece, entre as pessoas ou entre grupos, resultam alguns fenômenos psíquicos. Para Lewin, quando a comunicação é interrompida há bloqueio e quando não é comunicada senão uma parte do que os interlocutores pensam, sabem ou sentem a comunicação acompanha-se de filtragem. Segundo Mailhiota filtragem é mais prejudicial para o desenvolvimento da comunicação grupal do que o bloqueio. Diz ele:

 

“o bloqueio obriga os interlocutores a questionar suas comunicações e geralmente lhes permite reatá-las e restabelecê-las em um clima mais aberto e uma base mais autêntica, cada interlocutor tomando consciência do que neles e entre eles constitui obstáculo a suas trocas. Em caso de filtragem, entretanto, porque a comunicação subsiste enquanto a confiança diminui, ela tende a acompanhar-se de reticências e de restrições mentais, degradando-se e degenerando pouco a pouco em troca de mensagens cada vez mais ambíguas e equívocas”. (p.79 - mailhiot).

 

A perspectiva desse artigo é olhar estes dois aspectos da comunicação. No entanto, o que Lewin optou por chamar de bloqueios e filtragens, aqui será chamado de não dito, que engloba uma série de outros fenômenos, considerados como recorrentes e relevantes para o entendimento do funcionamento dos grupos.

Assim, do que mais se fala quando se faz referência ao não dito? Debieux, escreve que:

“ O não-dito diz respeito a diversas facetas da linguagem e, como tal, diz respeito ao inconsciente. Embora não se sobreponha a este pois pode contribuir para equacionar algumas dimensões da prática psicanalítica constituindo-se um operador, por excelência, da escuta psicanalítica”.(p.26 -debieux).

 

Acima a autora ressalta a faceta inconsciente do fenômeno do não dito, no entanto, como pode-se observar, há vários tipos e manifestações desse mesmo fenômeno, algumas delas são: o mal-entendido, os silêncios, o mal-dito, o sagrado e os não-ditos voluntários, que são os segredos (aquilo que não se deve dizer, especialmente por restrições morais), o implícito e as convenções sociais com seus mitos. Segundo esta mesma autora

 

“as histórias que não são contadas, as palavras censuradas, as verdades caladas, estas e outras espécies de não dito acarretam consequências, nunca benfazejas e quase sempre patológicas, em cada caso, o infantil sujeito sofre e, em razão de tais mordaças, produz sintomas” (p.13 – Debieux)

 

No trecho acima, Debieux fala especificamente do sujeito infantil, no entanto, também pode-se fazer um paralelo do que ela está referindo com os indivíduos adultos e na relação de grupo.  A psicanálise denuncia que aquilo que não é dito volta em forma de sintoma, ou melhor, na forma de um comportamento repetitivo, cristalizando o movimento do grupo.

 

Referência:

Artigo:  Não Dito nos Grupos – Ana Kelly Martinez e Camila Soares - SBDG

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